120 dias de Sodomia


Os 120 Dias de Sodomia, ou a Escola do Libertinismo (Les 120 journées de Sodome ou L'école du libertinage) é um conto escrito pelo nobre Francês Donatien Alphonse François, Marquês de Sade, em 1785. Conta a história de quatro homens ricos que resolvem ter a experiência suprema de liberdade em orgias. Para isso, eles se trancam em um castelo inacessível com um harém de 46 vítimas, a maioria adolescentes de ambos os sexos, e obrigam quatro cafetonas de bordel a contarem estórias de suas vidas. As narrativas das mulheres servem de inspiração para o abuso sexual e tortura das vítimas, que alcança um grau de intensidade até o assassinato de todas, com a exceção de uma que se perverte e se torna tão cruel quanto seus algozes.

Esse livro nunca foi publicado até o século 20. Recentemente foi traduzido para muitas línguas, incluindo Inglês, Japonês e Alemão. Devido aos temas de violência sexual e extrema crueldade, é considerado o trabalho mais repugnante, imoral e pervertido existente na literatura, e consequentemente banido de muitas bibliotecas.

Não gente o Blog ainda não virou um blog de pornografia. Eu vou comentar a obra de Sade pq como muitas outras, ela é profundamente mal compreendida.
Não que ele realmente não fosse um libertino, ele era; e passar 16 anos na prisão pode levar a pessoa a escrever muita besteira. Mas nesse caso, existe uma lição social no fundo da história.

Vejam o contexto: A França caminhava para a Revolução Francesa, que teve seu auge em 1789 e durou até 1799. Quando você pensa na Revolução Francesa, você pensa em Marie Antoinette, Maximilien Robespierre e um monte de guilhotinas.
O que você pode esquecer é a religião estabelecida pelo estado - O Culto do Ser Supremo. Era o tipo de religião que você pode esperar que um grupo de burocratas do governo criem: genérico, eficiente e completamente desvirtuado.
Através da história da França, religião e monarquia se misturavam como vinho e queijo, ou fogo e cinzas. A Igreja Romana Católica havia colaborado com os reis Franceses em crimes como o massacre dos Cátaros e a traição dos Cavaleiros Templários, ambos dos quais perderam toda riqueza e poder sob pretexto de supostos crimes de heresia.
Então era natural que quando a França se voltasse contra a monarquia, a Igreja seria a próxima contra a parede.

Voltaire, um filósofo Francês, dedicava grande parte de seus trabalhos ao combate do pensamento religioso e a corrupção que ele via na Igreja. Um racionalista e elitista, Voltaire achava que a religião era boa para manter o povo sob controle, mas ele defendia a teoria do Deísmo para os nobres. Particularmente, eu sou Deísta, uma filosofia que aceita a existência de um Deus Criador, mas estipula que Ele não se preocupa com assuntos mundanos dos seres humanos mais do que com os outros seres da criação, e que os problemas humanos, são dos humanos.
O problema é que como toda boa intenção, essa também deu em m*
Voltaire acreditava que a força suprema do universo era a razão, a habilidade lógica da mente humana. Após a morte de Voltaire, as pessoas confundiram as coisas e passaram ao ateísmo. O comitê da República era praticamente formado por Ateus, e afiliações com os Illuminatti e a Maçonaria - que apesar de ser um grupo com crenças religiosas, eram inimigos da Igreja.

Porém, ainda havia a necessidade do controle de massas. Então Robespierre mandou saquear a Catedral de Notre Dame e transformá-la no 'Templo da Razão'. E para manter a ordem pública, foi instituída a lei "Ninguém deve ser incomodado por opiniões religiosas, sendo que a manifestação das mesmas podem perturbar a ordem pública estabelecida por lei."

O problema, é que a maioria das virtudes, possui uma base espiritual/religiosa. Você não precisa ter uma religião para ser virtuoso, mas um mínimo de espiritualidade é necessário para reconhecer o outro como um ser com direitos.
Pra quem queria estabelecer os direitos humanos e cívicos, ferrar com a religião não foi uma boa idéia. E isso nos leva à obra de Sade.

Os quatro personagens ricos da obra eram um banqueiro, um Juiz, um Bispo e um Duque.
O texto começa assim:
"E agora, querido leitor, você deve abrir seu coração à história mais depravada já contada desde o princípio do mundo.
Nós quatro, com tempo e dinheiro à nossa disposição, e uma longa experiência com a libertinagem, estamos reunidos aqui no Castelo de Silling para satisfazer nosso apetite pela devassidão sem limites.
Conosco estão três esposas, uma filha, quatro prostitutas (cujos discursos noturnos inflamarão nossa luxúria), quatro velhas feias, oito homens vigorosos e dezesseis crianças abduzidas de suas famílias. Também, três cozinheiros e três copeiras.
Os portões do Castelo serão selados por quatro meses, de novembro a fevereiro. Neve e uma fossa intransponível nos colocam além de todo julgamento. Aqui, nós definimos os limites do mundo, nós criamos as leis que julgarmos apropriadas, nós estamos acima de vocês como deuses.
Porém, o nome de Deus não deve ser pronunciado, senão como blasfêmia; nem deve haver qualquer demonstração de alegria. A Capela será usada como banheiro, mas somente sob nossa permissão e rigorosa instrução. Exploraremos as quatro paixões nessa ordem: simples, complexa, criminal, e por fim, assassina.
Criaturas fracas, acorrentadas, cujo único destino é nos servir, vós não deveis esperar nada além de humilhação. Usaremo-vos sem piedade, ignoraremos vossos apelos e súplicas. O que podem oferecer a nós que não podemos tomar?"


Não é difícil fazer as associações, conhecendo o contexto. Temos nos personagens a representação dos poderes financeiro, religioso e governamental. Se os poderes do Estado não possuem outro poder acima deles; se todas as leis existirão somente se criadas por eles; eles efetivamente se tornam Deus. Porém sem virtudes. O Castelo pode muito ser o mundo, de onde não há fuga, se a filosofia Iluminista prega que o mundo material é o único mundo que existe.

  • Novembro; as paixões simples - São as únicas escritas em detalhe. São consideradas 'simples' em termos de não haver o ato sexual. Porém muitas pessoas não as considerariam simples, porque as vítimas são marcadas com brasa, e forçadas a comerem e beberem excrementos. Os quatro personagens - O Bispo, o Banqueiro, o Juiz e o Duque - infligem essas atrocidades às crianças sequestradas.
  • Dezembro; as paixões complexas - são as perversões mais extravagantes, com estupro, incesto e flagelação. Atividades de Sacrilégio e profanidade para dar a sensação de poder aos quatro personagens.
  • Janeiro; as paixões criminosas - Incluem a sodomização de jovens e crianças, homens que prostituem as próprias filhas e assistem aos procedimentos, e mutilação das vítimas. Durante um mês os quatro personagens desfazem totalmente a condição humana das vítimas, através de constante humilhação e espancamento.
  • Fevereiro; as paixões homicidas - Os últimos 150 atos envolvem assassinato. Inclue despelar crianças vivas, forçar aborto em grávidas, queimar famílias e matar recém-nascidos. Durante esse mês, os libertinos assassinam todas as meninas, exceto uma que se torna tão depravada quanto eles, e eles se regojizam no prazer de terem matado não seu corpo, como as demais, mas finalmente o que ela acreditava ser sua alma.the final 150 anecdotes are those involving murder.
  • Março - O final do texto, porém escrito com menos detalhes, já que as condições na prisão se tornavam mais precárias para o Marquês.
Ao longo de explorarem suas devassidões no texto, eles iniciam marcando a ferro em brasa quais jovens serão violados por qual pessoa.
"Penso em deflorar um ou dois esta noite. Mas antes devemos distinguir quais dentre esses fornecerá a cada um de nós sua virgindade - diz o Bispo - quero ver minhas possessões claramente identificadas...é importante saber onde se encontra sua propriedade, e saber o que ela anda fazendo."
O ato de propriedade e violação perpetrado pelos quatro poderes pode ser simbólico de como a autoridade pode destruir o indivíduo. Isso é especialmente relevante nos dias de hoje, onde temos etiquetas eletrônicas com registros de recém-nascidos e bancos de arquivos de DNA, tudo em nome da lei e da ordem.

Apesar de ser um movimento necessário, a hipocrisia humana desvirtuou completamente o movimento iluminista. Isso já fica bem claro, quando o caminho para a utopia precisava ter que passar pela guilhotina. Idealistas e reformistas se tornaram carrascos, e a hipocrisia do iluminismo levou à criação de monstros, os deuses da razão.
A razão sem a virtude se torna a justificativa para os atos mais depravados que o prazer dos que detém o poder pode aspirar. Afinal, o que se poderia opor contra eles, como o próprio texto afirma? Isenta da virtude, a razão dá plenos direitos a quem detém o poder sobre as vidas das pessoas.
Todo e qualquer ato de boa intenção, isento de virtude, cria um monstro da razão. O povo da França derrubou a monarquia em nome dos fracos, e os fracos ao se tornarem fortes, fizeram a mesma coisa que os fortes sempre fizeram aos fracos.

Um dos personagens, enquanto violenta um adolescente declara:
"Quem me dera poder engravidar este menino, em desafio à própria natureza! De que vale a razão, senão para tocarmos a fronteira do impossível? Gostaria de manchar com meu excremento a face da lua e para sempre macular sua pureza com minha imundície."

Aos detentores da razão desprovida de virtudes espirituais, não basta entenderem a natureza; para eles, ela nada representa senão uma massa de modelar, um molde, no qual desejam deixar sua marca. Também relevante em um mundo onde um Superacelerador de Partículas pretende criar buracos negro em miniatura, apesar da opinião contrária de vários cientistas quanto aos perigos dessa empreitada.

"Fiquem de joelhos e rezem, rezem para seu Deus surdo e mudo, enquanto os usamos como bem quisermos."
A ciência atual pretende passar a imagem de que todas nossos pensamentos são gerados por impulsos elétricos em nosso cérebro; todas nossas emoções apenas espamos químicos do cérebro. Se assim for, qual diferença entre nós e robôs? E se somos como robôs, então podemos ser programados e comandados. A ciência poderia considerar que essas sensações não são criadas pelo cérebro, mas sim efeitos causados no cérebro para traduzirem no plano físico sensações de uma consciência que transcende o corpo físico; nossa alma não está em nosso corpo, mas sim nosso corpo está banhado em nossa alma, magneticamente falando. Enquanto a ciência insistir em nos ver apenas como autômatos, a dignidade humana não é aceita pela razão.

O texto termina com o Juiz se expressando da seguinte forma:
"Ah. A luz da Razão.
Nossa época é uma época de razão. Uma época de linha e medida. A razão fará da Mãe Natureza uma meretriz amarrada para nosso deleite, e nos colocará em altos tronos, como mestres do Universo.
E você: Se te dessem a possibilidade de fazer qualquer coisa, tudo, sem ninguém para te julgar ou punir, ninguém para dizer "chega! basta!" quão longe você iria? Mais longe do que nós?
Olhe só para você! Você queria fazer isso! O que fez para nos impedir?
Culpados. Todos Culpados."

O culto ao ser supremo não durou muito, pois quando tomou a França, Napoleão restituiu a Igreja Católica para consolidar sua coroação como Imperador.
É interessante notar porém uma forte ironia: Sade escreveu esse conto antes da Revolução. Ele era um defensor da libertinagem e assíduo praticante, o que levou à sua prisão. Livre de toda virtude, é interessante notar que o texto que seria o ápice do maior defensor dos libertinos, serve justamente para criticar toda a hipocrisia da razão sem virtude, da libertinagem.
Ou o tiro saiu pela culatra, ou o Marquês percebeu que sua filosofia não devia ser usada pelo Estado. Ou mais ainda, talvez ele apenas fosse um velho safado escrevendo pornografia na prisão, já que ele defendia que virtudes e valores morais não existiam na natureza. Mas de alguma forma, a ironia do destino serviu para mostrar que o Iluminismo livre da virtude espiritual só pode lançar o mundo nas Trevas.
Por isso quem tiver estômago pra ler o conto inteiro, pode colocá-lo sob um novo contexto; um aviso sobre o animal selvagem que o homem se torna livre de toda virtude, e a peça sem vida que se torna quando submisso a todo controle; dos perigos que o Estado pode representar quando faz da República um Deus e dos males que ele nos causa em nome da Lei e da Ordem.

Imagem do Texto: O Marquês de Sade, ainda jovem e antes de sua prisão. Após ser libertado da Bastilha pela Revolução, Sade morreu aos 74 anos, enquanto dormia.

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1 comentários:

Sniper disse...

É incrível como é estreita a linha entre a virtude e a razão e como a falta de uma delas pode ser desastrosa. Sim, porque também acredito que só virtude sem razão nenhuma não traz bons resultados. Quanto ao livro, acho que o autor escolheu bem o tema para transmitir a mensagem, porque o dentre os atos que o ser humano mais repudia estão o de violência sexual, o que nos mostra que se perdemos nossas virtudes estaremos a mercê de nossos mais repugnantes desejos.

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